Exposição Vaivém ocupa CCBB de 3 de setembro a 10 de novembro

5. BENÉ FONTELES Série Ninhos , 1988, fotografia, coleção do artista.jpg

A trajetória das redes de dormir nas artes e na cultura visual no Brasil está retratada na exposição Vaivém, que ocupa o Centro Cultural Banco do Brasil de 3 de setembro a 10 de novembro, com mais de 300 obras, que faz recorte dos séculos 16 ao 21, de 141 artistas, entre eles, 32 indígenas. O crítico, historiador da arte e curador do MAC-Niterói, Raphael Fonseca, assina a curadoria da iniciativa. A seleção inclui pinturas, esculturas, instalações, fotografias, vídeos, documentos, intervenções, performances e objetos de cultura visual, como HQs e selos.

Tudo surgiu a partir de uma pesquisa de doutorado do curador, que transformou o trabalho em exposição e compartilhou parte das obras que encontrou ao longo da pesquisa. “Longe de reforçar os estereótipos da tropicalidade, esta exposição investiga as origens das redes e suas representações iconográfica. Ao revisitar o passado conseguimos compreender como um fazer ancestral criado pelos povos ameríndios foi apropriado pelos europeus e, mais de cinco séculos após a invasão das Américas, ocupa um lugar de destaque no panteão que constitui a noção de uma identidade brasileira”, explica.

A exposição se divide em núcleos temáticos que facilitam a visitação do público. O primeiro, Resistências e permanências traz as redes como símbolo e objeto onipresente da cultura dos povos originários do Brasil, sendo a maioria das obras produzida por artistas contemporâneos indígenas, como Arissana Pataxó. No vídeo inédito Rede de Tucum, ela documenta Takwara Pataxó, a Dona Nega, única mulher da Reserva da Jaqueira, em Porto Seguro (BA), que ainda guarda o conhecimento sobre a produção das antigas redes de dormir Pataxó, feitas com fibras extraídas das folhas da palmeira Tucum.

O segundo núcleo, A rede como escultura, a escultura como rede, exibe trabalhos que apresentam redes de dormir a partir da linguagem escultórica como Rede Social, uma instalação interativa do coletivo Opavivará!, com uma rede gigante que convida o visitante a se balançar.  Fazem parte ainda obras do artista Gustavo Caboco, de Curitiba e filho de mãe indígena, e Sallissa Rosa, nascida em Goiânia e filha de pai indígena. Neste núcleo há ainda a exibição do vídeo Ela, criado a partir de selfies de mulheres em redes de dormir, abordando o lugar da mulher indígena na sociedade contemporânea brasileira.

Olhar para o outro, olhar para si, o terceiro núcleo, reúne documentos e trabalhos de artistas históricos, como Hans Staden, Jean-Baptiste Debret e Johann Moritz Rugendas. Ao lado deles, artistas contemporâneos indígenas foram convidados a desconstruir o olhar eurocêntrico dessas imagens a respeito de seus antepassados. Entre eles, a pintora Duhigó Tukano, que apresenta a inédita acrílica Nepũ Arquepũ (Rede Macaco), sobre o ritual de nascimento de um bebê Tukano, e Dhiani Pa’saro, que expõe a marchetaria Wũnũ Phunô (Rede Preguiça), composta por 33 tipos de madeira.

Em Disseminações: entre o público e o privado as redes surgem em atividades do cotidiano do Brasil colonial, como mobiliário, meio de transporte e práticas funerárias. Um dos destaques, Dalton Paula, artista afro-brasileiro de Goiás, lança em suas pinturas um olhar sobre as narrativas a respeito da negritude no Brasil desde a colonização. Os lugares que as redes ocupam na vida contemporânea no Brasil, em especial na região Norte, também estão pontuados nesse núcleo. Fotografias de Luiz Braga, por exemplo, exibem redes de dormir em cenas do cotidiano no Pará.

No núcleo Modernidades: espaços para a preguiça, a rede passa a ser associada ao descanso decorrente do encontro entre o trabalho braçal e o calor tropical. Macunaíma, livro de Mário de Andrade, em que o personagem passa parte da história deitado em uma rede, está em obras de diferentes linguagens. Carybé foi o primeiro a fazer ilustrações do personagem. Um desenho pouco exibido de Tarsila do Amaral mostra o Batizado de Macunaíma. Joaquim Pedro de Andrade dirigiu o filme que, estrelado por Grande Otelo, completa 50 anos, e os cartunistas Angelo Abu e Dan X adaptaram a história em quadrinhos.

E por fim, no núcleo Invenções do Nordeste, foram reunidas obras que transformam em imagens mitos a respeito da relação entre as redes e esta região do país, além de trabalhos em que elas surgem como símbolo de orgulho local e de sua potente indústria têxtil. A exposição traz também obras de Tunga, artista que inaugurou o CCBB São Paulo, em abril de 2001. A instalação Bells Falls ganha uma nova versão, sendo apresentada ao lado dos registros fotográficos da performance 100 Rede, realizada em 1997 na Avenida Paulista.

SERVIÇO
Vaivém        
Nas galerias 1 e 2 e Pavilhão de Vidro do Centro Cultural Banco do Brasil.
De 3 setembro a 10 de novembro. De terça-feira a domingo, das 9h às 21h.

Palestra com o Curador
Construções do Brasil no vaivém da rede de dormir: de pesquisa acadêmica para uma exposição trasnhitórica, com Raphael Fonseca.
Dia 3 de setembro. Terça-feira, às 19 horas no hall do Museu, primeiro andar.
Entrada gratuita mediante voucher a ser retirado na bilheteria do CCBB.

 
 

 
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